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sábado, 27 de outubro de 2012

Conto da despedida

Em algum lugar, 25 de outubro de 2012


A minha outrora amada,

Sei que você deve estar surpresa em receber esta carta. Nunca fui bom com as palavras, e sempre tive uma preguiça enorme de escrever. Mas confesso que não vi outra forma de falar-lhe palavras tão duras. Sei que é covardia não olhar em teus olhos para dizer o que tenho de tão urgente, mas não havia outra maneira.

O que tenho para dizer é algo novo, inclusive para mim. Até pouco tempo tinha muitas certezas: sabia que a amava, e que era meu bem mais precioso. Sabia inclusive que sem você seria um vazio sem fim. Mas nos últimos dias um punhado de dúvidas me acometeu de tal forma que agora estou eu aqui, escrevendo-te uma carta de despedida.

Quero deixar claro que o culpado sou eu mesmo. Sei que em momentos de fúria disse palavras horríveis a você, e não é a primeira vez que me tento a abandoná-la. Mas creio que nunca antes tive reais motivos... Sempre fazia questão de colocar a culpa em outras pessoas ou em situações rotineiras. Só agora dei me conta de que o verdadeiro responsável por este fracasso, sou eu mesmo.

Nos últimos dias, descobri fatos importantes sobre mim.

Lembra-se de quando eu defendia a liberdade? Quando dizia que só seriamos felizes quando fossemos livres e sem obrigações? Descobri que estava mentindo para mim mesmo. A verdade é que não suporto a ideia de ver os bandidos fora das prisões, as feras fora das jaulas, os pássaros fora das gaiolas.

Lembra-se de quando lhe disse que jamais bateria em meus filhos? A verdade é que eu mesmo espanquei muitos colegas da escola quando era mais jovem, e me senti muito feliz com isso.

Lembra-se quando lhe disse que o maior mal da nossa mídia era a censura? A verdade é que monitoro cada palavra que meus amigos colocam nas redes sociais, para processá-los ao menor sinal de ataque a minha honra.

Lembra-se quando chorei ao assistir aquele vídeo sobre os campos de concentração nazistas? Quero que saiba que eu tenho vontade de matar aqueles indivíduos com suas músicas escandalosas, que não suporto aqueles apolíticos iletrados, e que muitas vezes antes de dormir já imaginei um mundo perfeito onde não haveria uma parte considerável de pessoas que desagradam minhas preferências. Até sonhei com um mundo perfeito, onde só a imagem da beleza era vista.

Não sei como exatamente me dei conta... Acho que foi durante aquela viagem de trem.

Descobri que eu sou exatamente o oposto do que defendo.

Para falar a verdade, a essa altura não sou mais. Como lhe disse, esta é uma carta de despedida. Durante um dia inteiro tentei mudar, e não consegui. Encurralado, sufoquei-me ante tamanho paradoxo, e aqui me despeço.

Vida, agradeço porquanto tenha durado...



Q.
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